Em um cenário onde o cinema brasileiro frequentemente oscila entre a comédia pastelão e o melodrama açucarado, “O Som ao Redor” (2012) surgiu como um tapa na cara. Dirigido por Kleber Mendonça Filho — que viria a se consolidar como um dos maiores cineastas do país com “Aquarius” (2016) e “Bacurau” (2019) —, o longa de estreia na ficção é um retrato cirúrgico da classe média brasileira, de seus medos, hipocrisias e da violência que pulsa silenciosamente atrás dos muros altos e portões eletrônicos.
A trama e seus personagens
A história se passa em uma rua tranquila da zona sul do Recife, no bairro de Setúbal. Após uma série de pequenos furtos, os moradores decidem contratar uma milícia particular de seguranças, liderada por Clodoaldo (Irandhir Santos, em uma atuação impecável), para vigiar a vizinhança. O que parece uma solução para o problema da insegurança logo se revela uma faca de dois gumes.
Entre os personagens centrais estão Bia (Maeve Jinkings), uma dona de casa infeliz com a rotina, que tem seu sono atormentado pelos latidos constantes do cachorro do vizinho; João (Gustavo Jahn), um jovem corretor de imóveis que retorna de uma temporada no exterior e se incomoda com a presença dos seguranças; e Francisco (Waldemar José Solha), uma espécie de "coronel" urbano que detém boa parte dos imóveis da região e exerce uma influência silenciosa sobre todos . Suas vidas se entrelaçam em um cotidiano aparentemente banal, mas que carrega tensões profundas.
A arquitetura do medo
Mais do que um filme de personagens, “O Som ao Redor” é um filme sobre espaço — e sobre como o espaço urbano reflete nossas desigualdades e paranoias. O diretor utiliza a paisagem do Recife para construir uma metáfora visual do aprisionamento . Muros, grades, cercas elétricas e portões automáticos estão em quase todos os enquadramentos, criando uma sensação claustrofóbica que o espectador sente na pele.
A escolha estética é deliberada. Mendonça Filho filma corpos atravessados por grades, personagens vistos por frestas e delimitados por portas e corredores . A sensação de confinamento não se apresenta como um susto, mas como uma atmosfera constante. A luz natural e funcional, sem grandes dramaticidades, mantém os ambientes ancorados em uma aparência cotidiana que torna o desconforto ainda mais perturbador.
O som como protagonista
O título do filme não é à toa. O som é talvez o elemento mais inovador e sofisticado da obra. Em “O Som ao Redor”, a paisagem sonora é tão importante quanto a visual. Latidos de cachorros, alarmes de carro, construções, portões rangendo, passos fora de campo — o filme é uma tapeçaria de ruídos urbanos que constroem uma camada sensorial que frequentemente desestabiliza a imagem.
A crítica internacional notou essa originalidade. O longa foi eleito um dos 10 melhores filmes de 2012 pelo “The New York Times” e venceu o Prêmio da Crítica no Festival de Roterdã. Não é difícil entender por quê: o que se escuta no filme raramente coincide plenamente com o que se vê, criando uma dissociação que reflete a paranoia urbana . O medo não precisa se mostrar; ele já se faz presente como frequência.
A crítica social e a classe média
Sob a superfície de um thriller de observação social, “O Som ao Redor” é uma crítica feroz à classe média brasileira e suas contradições. A cena da reunião de condomínio é exemplar: um morador se diz contra a demissão de um funcionário, mas abandona a reunião por causa de outros compromissos. A hipocrisia e a indiferença são escancaradas sem necessidade de discursos.
O filme também aborda as relações de trabalho e as heranças do passado escravocrata. As dinâmicas entre patrões e empregados variam de personagem para personagem — há a dona de casa que trata mal os funcionários, o patrão que trata a empregada como "parte da família", e a solidão da mulher que não precisa de empregada, mas sofre com o vazio da casa vazia . A chegada dos seguranças, liderados por Clodoaldo, traz à tona fantasmas de um Brasil arcaico, de coronéis e de injustiças que nunca foram totalmente enterradas .
Legado e reconhecimento
Com um orçamento de apenas R$ 1,8 milhão, “O Som ao Redor” arrebatou 38 prêmios internacionais, incluindo o Troféu Redentor de Melhor Filme no Festival do Rio e o Kikito de Melhor Direção em Gramado . Mais do que uma obra-prima do cinema pernambucano, o filme é um retrato de um país que vive atrás de grades, com medo do vizinho e de si mesmo.
Kleber Mendonça Filho criou um filme para se sentir — para ser levado à realidade incômoda de uma classe média que se protege de tudo, menos de sua própria paranoia. E, mais de uma década depois, “O Som ao Redor” continua mais atual do que nunca.







