Quando um artista de 23 anos lota praças públicas com 150 mil pessoas, viraliza no TikTok, emplaca músicas no Top 50 Global do Spotify e ainda vence um Grammy Latino, não se trata mais de um "hit passageiro". Trata-se de um fenômeno cultural. E João Gomes, o cantor pernambucano de piseiro, é exatamente isso: um estrondo que acontece uma vez em muitas gerações.

Das origens ao estrelato

Nascido em Serrita, no Sertão do Araripe, João Fernando Gomes Valério cresceu em Petrolina, onde cantou no coral da igreja desde os sete anos de idade. Filho de barbeiro e agricultora, aprendeu cedo uma lição que carrega até hoje: antes de dizer algo, ouvir e observar bem o outro.

Em 2019, enquanto estudava zootecnia no Instituto Federal de Pernambuco, começou a gravar vídeos e publicá-los online. O que parecia um hobby rapidamente se transformou em um movimento nacional. Em junho de 2021, lançou seu álbum de estreia, *Eu Tenho a Senha*, e a faixa "Meu Pedaço de Pecado" alcançou o topo das paradas brasileiras do Spotify e figurou na lista global da plataforma. O sucesso foi tão imediato que, ainda em 2021, ele já concorria ao Prêmio Multishow de Artista Revelação.

A música que vem do sertão

João Gomes canta forró, mas não o forró tradicional do pé de serra. Ele é o principal nome do **piseiro**, uma vertente que surgiu no início dos anos 2000 como uma solução criativa para artistas do interior que não tinham dinheiro para contratar músicos: tudo saía de um teclado, em playback. O que era gambiarra virou estilo, e hoje João é chamado de "O Rei do Piseiro".

O que impressiona é a ponte que ele constrói entre gerações e gêneros. Quem é adepto do forró pé de serra muitas vezes torce o nariz para o piseiro. Mas João faz os dois. Em seu álbum *Dominguinho*, gravou o xote "Lembrei de nós" ao lado de Mestrinho e Jota.pê — uma aproximação que pode levar os fãs de piseiro a redescobrir Jackson do Pandeiro, e os tradicionalistas a encarar o piseiro com menos preconceito.

O reconhecimento que veio para ficar

A trajetória de João Gomes é marcada por marcos impressionantes. Em agosto de 2022, gravou seu primeiro DVD no Marco Zero, em Recife, com participações de Vanessa da Mata, L7nnon e Fagner — e um público de 150 mil pessoas. No mês seguinte, estreou no Rock in Rio.

Mas o reconhecimento mais significativo veio em 2025: João Gomes venceu o Grammy Latino na categoria Melhor Álbum de Raízes em Língua Portuguesa com o disco *Dominguinho*. Em 2023, ele já havia feito história ao se tornar o primeiro cantor de piseiro indicado ao prêmio, com o álbum *Raiz*.

Em outubro de 2025, foi a vez de outro marco: João Gomes foi o responsável por lançar a versão brasileira do “Tiny Desk”, o famoso programa da rádio NPR norte-americana. A estreia foi um show intimista de 20 minutos com sua banda, gravado no Brasil.

Por que João Gomes é diferente

O que explica tanto sucesso? Há alguns fatores. Sua voz grave e anasalada — característica dos cantores de piseiro — pode soar estranha para ouvidos sudestinos, mas remete diretamente a Luiz Gonzaga, que já cantava nessa região nos anos 1950. Mais do que uma voz, João Gomes carrega a oralidade de uma região inteira: canta como se estivesse conversando com os amigos em Petrolina, e essa autenticidade conquista multidões.

Além disso, ele tem uma história que não se resume às redes sociais. Sua trajetória é de sertão, de trabalho, de família. O carisma, como observou o colunista Julio Maria, parece vir da própria terra.

João Gomes não é apenas o artista do momento. Ele é, como disse o crítico Julio Maria, "o maior nordestino pop em muitos anos". Sua música conecta o sertão ao mundo, o tradicional ao moderno, o pé de serra ao piseiro. E, ao fazer isso, ele reescreve a história da música popular brasileira — com a humildade de quem aprendeu a ouvir antes de falar.