Há filmes que nos acolhem em suas histórias. E há aqueles que nos empurram para um beco sujo e escuro, nos forçando a encarar o que há de mais primitivo e desconfortável dentro de nós. "O Cheiro do Ralo", dirigido por Heitor Dhalia e lançado em 2006, é um eloquente exemplo dessa segunda categoria. Longe das fórmulas convencionais do cinema brasileiro, a obra é um mergulho ácido e fascinante na psique de um homem que trata pessoas como objetos e se vê obcecado por aquilo que não pode comprar: uma bunda e um fedor.
A "Coisificação" do Ser Humano
Lourenço, interpretado com maestria visceral por Selton Mello, é dono de uma loja de penhores, um espaço onde a fragilidade financeira alheia se transforma em lucro e entretenimento perverso. Ele é um homem que, nas palavras da crítica, "coisifica" tudo e todos ao seu redor . Em seu microcosmo, os clientes não têm nome — são identificados por seus pertences, pela tragédia que os trouxe até ali, como "a viciada", "o PM" ou "o homem do olho".
Dhalia, com uma direção precisa e inspirada no cinema pulp americano e em diretores como os irmãos Coen, constrói uma narrativa claustrofóbica sob a ótica do protagonista . A câmera é seu olhar, e o espectador é forçado a se alinhar — ainda que com repulsa — à sua visão de mundo. A vida de Lourenço é uma coleção de pequenos jogos de poder: ele humilha, subjuga e sente prazer ao recusar objetos de valor sentimental profundo para quem os oferece. Ele até abandona a própria noiva com a frase cruel: "Eu não te amo. Nunca te amei. Eu não amo ninguém".
A Bunda e o Ralo: As Obsessões que Falham
O mecanismo perfeito (e apodrecido) de Lourenço começa a falhar diante de duas obsessões.
A primeira é a "Bunda" (com "B" maiúsculo) de uma garçonete interpretada por Paula Braun. Incapaz de estabelecer qualquer vínculo afetivo verdadeiro, Lourenço desenvolve um desejo platônico e doentio, disposto a pagar pelo privilégio de apenas observar o traseiro da moça.
A segunda — e mais emblemática — é o cheiro fétido que emana do ralo do banheiro de sua loja. Este odor, que ele tenta desesperadamente combater e esconder dos outros, é a materialização da própria podridão moral que acumulou por anos. Em um momento brilhante do roteiro, um cliente lhe diz: "O cheiro é teu. É toda a podridão que você vem acumulando há anos que está vindo para fora!". A metáfora, de tão escatológica, torna-se genial.
Uma Obra-Prima de Baixo Orçamento
O filme é também um caso notável de eficiência cinematográfica. Originalmente orçado em RS$2,5 milhões, “O Cheiro do Ralo foi produzido per menos de RS$315 mil. A economia forçou a equipe a ser criativa, resultando numa estética crua, quase teatral, que encaixa perfeitamente com o submundo retratado. Longe de prejudicar a obra, a limitação orçamentária acentuou sua crueza e poder de foco.
Rir para Não se Sentir Fedido
O legado de "O Cheiro do Ralo" é controverso e podre — no melhor sentido possível. Premiado no Festival do Rio e na Mostra de São Paulo, e selecionado para o prestigiado Festival de Sundance, ele divide opiniões até hoje. Há quem o veja como um exercício de cinismo superficial. No entanto, a maioria reconhece a genialidade perturbadora de Selton Mello, que entrega uma das atuações mais corajosas de sua carreira, e a capacidade de Heitor Dhalia em transformar um tema repugnante em uma experiência hipnótica.
Mais do que um filme sobre um homem mau, "O Cheiro do Ralo" é um espelho. Ao assistir às perversões de Lourenço, o espectador ri de nervoso, não por aprovação, mas por reconhecer, em algum nível, os pequenos desejos de controle, consumo e objetificação que habitam a todos nós . E, no final, fica a sensação de que talvez o fedor que tanto tentamos esconder também seja, de certa forma, nosso.






