A cena do cinema nacional nos anos 1970 tinha dois endereços completamente opostos. De um lado, as chancelas intelectuais do Cinema Novo; de outro, as calçadas escuras da Boca do Lixo paulistana e os estúdios cariocas que abrigavam um gênero que dividia opiniões: a pornochanchada. Era um território dominado por homens, tanto atrás quanto na frente das câmeras, frequentemente tratado com desprezo pela crítica e desconfiança pelos intelectuais.

Até que, em 1978, Neville D’Almeida pegou um conto de Nelson Rodrigues — mestre em dissecar a podridão da classe média — e o entregou nas mãos de Sônia Braga. O resultado foi “A Dama do Lotação” : um filme que muitos resumiram como mais um derivado erótico do período, mas que hoje revela uma sutileza cortante e uma ousadia rara.

Solange, a personagem de Sônia, é uma recém-casada que sofreu uma noite de núpcias frustrante. Diante da inaptidão e da frieza do marido, ela não se resigna à reclusão ou à histeria padrão. Ela faz uma escolha drástica e subversiva: decide viver sua sexualidade em ônibus lotados, jogando-se nos braços (e nos bancos) de completos estranhos.

O que à primeira vista pareceu um mero plot de comédia erótica é, na verdade, um alegoria feroz sobre o desejo feminino como território de poder.

O Sexo Como Punhal da Moral Burguesa
Solange não é uma vítima indefesa. Diferente da heroína romântica padrão, ela ataca a hipocrisia da família tradicional brasileira pelo seu ponto mais vulnerável: o controle do corpo da mulher. Em suas aventuras anônimas, ela não busca apenas prazer; busca um tipo de liberdade que o casamento e a sociedade lhe negam.

É impossível analisar “A Dama do Lotação” sem reconhecer a força sísmica da performance de Sônia Braga. No auge de seu sucesso após “Dona Flor e Seus Dois Maridos” (1976), ela tinha o país aos seus pés. Mas, ao invés de repetir a fórmula da viúva sedutora de Jorge Amado, ela mergulhou de cabeça no lodo da personagem rodriguiana. Sônia transforma a solidão da protagonista em uma arma afiada .
Numa época em que a censura da ditadura militar mirava em qualquer resquício de subversão política e moral, o filme carrega uma coragem silenciosa. O sexo ali não é gratuito ou cômico (como grande parte do gênero). Ele é visceral, desconfortável e, muitas vezes, triste. É a trincheira de uma mulher que aprendeu que a pior prisão não é o busão lotado, mas o casamento vazio.

Um Clássico em Revisão
Para os editores do BrasilBest, “A Dama do Lotação” merece ser revisitado com os olhos de hoje. Ele pode ser datado na estética — nos cortes, na maquiagem, nas barbas dos atores —, mas é urgentemente contemporâneo no tema.

O filme questiona se a "libertinagem" é realmente liberdade ou apenas uma resposta ao trauma. E coloca Sônia Braga não como um objeto de desejo passivo, mas como o olhar que avalia, escolhe e consome os homens que "dá carona". É o retrato da classe média carioca — dos que sobem no ônibus e dos que ficam no ponto final — visto pelo binóculo cruel e certeiro de Nelson Rodrigues.

Se você quer entender por que a pornochanchada nem sempre foi "só pornochanchada", e como Sônia Braga se consolidou como a maior musa da resistência do cinema erótico nacional, “A Dama do Lotação” (disponível em plataformas digitais e, claro, em relançamentos em mídia física) é uma aula de cinema e sociologia . Sobe nesse busão, mas prepare o coração: o passeio é brutal.