A MIGRAÇÃO DO OLHAR

Vive as vidas,
Uma a uma
Sem os sonhos confundir,
Eu vou para baixo, para cima
Sou outro, sem outro ser.
- Paul Celan in A morte é uma flor

Viajar e conhecer outras culturas possibilita deslocarmos nosso olhar. Ao mergulhar na ficção, também desbravamos mundos diferentes. Na minha trajetória profissional, pude unir ambas as coisas.

Formado no Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Federal do RJ, estava prestes a começar o doutorado na USP. A Marilena Chauí havia aceito ser minha orientadora.

Foi quando recebi um convite do Zevi Ghivelder para escrever para tv, adaptando textos clássicos. Fui trabalhar com ele e o Carlos Heitor Cony, que comandavam o departamento de teledramaturgia da extinta Tv Manchete. Cheguei a escrever uma mini-série à partir da Comédia Humana do Balzac.
Mas era um “filósofo” escrevendo, sem o traquejo da dramaturgia mais popular. Nesta época, o Herval Rossano estava dirigindo Dona Beija. Pedi para fazer um estágio, logo descobri uma grande paixão pelo ofício da direção. Com muita dedicação e estudo, migrei para ser diretor de tv e cinema…

Oriundo de uma família extremamente intelectualizada, eu havia lido muito teatro clássico na adolescência. Por outro lado, meu irmão mais velho, Alfredo, que também escreve, sempre foi cinéfilo, e me levava todos os fins de semana para a Cinemateca do Mam.

Muito jovem, assistia Orson Welles, Eisenstein, Abel Gancé, Truffaut, Godard, Nelson Pereira dos Santos, Sganzerla, etc. Foi uma contribuição fundamental para a minha formação humanista e cinematográfica. Assim como tive uma herança avoenga no gosto pela fotografia.

Na minha tenra infância, meu pai, apaixonado pela fotografia como o seu pai, tinha uma super-8. Passaram-se muitos anos e, eu já exercendo direção em tv, resolvi digitalizar todo o material existente do meu pai, que estava adormecido em algumas caixas no armário mais remoto da biblioteca. Havia muitos anos que eu sequer lembrava destes vídeos, mas eis o meu assombro quando assisto: a maneira como costumo filmar é absolutamente igual à maneira que o meu pai mostrava a realidade nos seus filmes caseiros. Aliás muitos destes filmes em viagem, curiosamente.

O peculiar olhar dele para a arquitetura, herdei só pode ser “geneticamente”… Enfim uma afinidade no olhar para o que está no mundo, do lado de fora… E também tive a influência musical da família de minha mãe, o que foi essencial para a minha trajetória no audiovisual.

Música, Cinema, Teatro, Estética, Lógica, foram grandes instrumentos para a minha possibilidade de construir histórias. Acredito que uma das principais forças para o êxito da humanidade foi a sua capacidade de criar linguagem, de contar histórias.

Sem esquecer a psicologia, com forte influência na minha vida, já que minha mãe era psicanalista. Mas me sinto sobretudo um contador de histórias… Aliás acredito que a invenção da escrita e a capacidade de contar histórias, não mais apenas através da memória oral foi/é o grande motor da Humanidade. O verdadeiro pacto social, o que distinguiu nosso modo gregário de outros animais.

Voltando para a minha jornada, na TV Manchete, onde comecei, pude conhecer/viajar Brasil afora, esquadrinhando mais in loco a nossa enorme diversidade de regional. Depois, já na TV Globo, onde cheguei a Diretor de Núcleo, pude realizar um percurso com olhar n’o Outro:

Rodei em países diferentes como Índia, Marrocos (O Clone), EUA (América), Turquia (Salve Jorge), França (Um Lobo Entre Os Cisnes).
E também tivemos a honra de ganhar, com Caminho das Índias, o primeiro Emmy do Brasil.

Resultado de dois anos debruçados exclusivamente na civilização hindu para poder realizar esta história, em que cada personagem brasileiro tinha, como se fosse, um avatar indiano. Assim pude mergulhar em culturas muito díspares, o que obrigatoriamente amplia nosso horizonte ao cotejar mundos tão diferentes…

E outras vezes, obras que resgataram acontecimentos da nossa história, que ainda eram pouco conhecidos dos próprios brasileiros.
Por exemplo, uma verdadeira viagem ficcional e real foi a série Amazônia de Galvez a Chico Mendes. Acompanhar cem anos de história da Amazônia, percorrendo desde o delírio civilizatório do ciclo da borrachamatéria prima essencial para a Revolução Industrial, sendo a seringa nativa da nossa floresta - chegando até Chico Mendes e os Povos da Floresta, foi fascinante, uma imersão itinerante do Acre até Manaus…

Fui finalista do Emmy três vezes, sendo a última delas por Portugal (Na Corda Bamba). E já tinha feito antes, na década de 90, uma co-produção com Portugal (RTP). O curioso é que o produtor à época, André Magalhães, hoje tornou-se um Chefe célebre em Lisboa, proprietário de ótimos restaurantes.
Lisboa, cidade que estive pela primeira vez ainda antes, mochilando em 1981, mas aí já é outra história…

E além deste longo caminho televisivo, tenho também me dedicado ao cinema. No primeiro longa metragem, abordei a questão da violência doméstica, com um casal que vivia uma ´folie a deux´. Vidas Partidas foi um dos últimos filmes do Domingos Montagner.

Agora estou me preparando para lançar o segundo longa metragem. Quem migra de história em história, assim como de viagem em viagem, adquire um múltiplo olhar, uma miríade de pontos de vista, e já não sabemos em qual lado da Janela de René Magritte estamos…

E com uma certa poética imagética, vislumbramos as luzes e as sombras de poderosas histórias…

UM LOBO ENTRE OS CISNES
A estréia será em julho de 2025. Trabalhei em parceria com o mexicano Guillermo Arriaga (Babel, 21 gramas, etc) em todas as fases, do texto à edição. É um filme baseado na história do bailarino Thiago Soares (interpretado por Matheus Abreu) com seu mentor Dino Carrera (na ficção, feito por Darío Grandinetti). A história tem a dança como cenário para falar de TRANSFORMAÇÃO.

Do deslocamento na compreensão de mundo do Thiago que sai do subúrbio carioca e através do balé, ganha o mundo. Dançava Hip Hop no Baile de Madureira, chegou tardiamente ao balé, mas alcançou os maiores palcos do mundo e foi primeiro bailarino do Royal Ballet de Londres por vários anos. Dirigi o filme junto com a Helena Varvaki, parceira de longa data.

CRONOLOGIA DOS TRABALHOS:
-Corpo Santo- (1987)- TV Manchete
-Carmen- de Gloria Perez (1988)- TV Manchete
-Olho por Olho (1988)- TV Manchete
-Kananga do Japão- telenovela histórica (1989/90)- TV
Manchete
-Ana Raio e Zé Trovão (1990/91)- road novela- itinerante -
TV Manchete
-O Guarani - mini-série adaptada de clássico da literatura
brasileira (1991)- TV Manchete
-O Guarani - mini-série adaptada de clássico da literatura
brasileira (1991)- TV Manchete
-Nostradamus, o mago do tempo- teleteatro especial (1992)-
TV Manchete
-O Marajá -de José Louzeiro e Alexandre Lydia (1993)- TV
Manchete
-Guerra sem fim (Endless War)- novela sobre o crime
organizado (1993/94)- TV Manchete
-Incrível! Fantástico!Extraordinário! - seriado semanal de
histórias clássicas de terror (1994/95)- TV Manchete
-Idade da Loba -(1995/96)- TV Bandeirantes/RTP
-O Campeão (1996)- TV Bandeirantes

-Você decide (1997)- TV Globo
-Corpo Dourado (1998)- TV Globo
-Laços de Família (1999)- telenovela de Manoel Carlos- TV
Globo
-Suave Veneno (1999/2000)- telenovela de Aguinaldo Silva-
TV Globo
-O Último dos Homens (livre adaptação do Colecionador)
(2000)- Teatro
-O Clone (2001/02)-de Gloria Perez- TV Globo
-A Casa de Sete Mulheres (2002/03)- TV Globo
-Celebridade (2003/04)- de Gilberto Braga- TV Globo
-América (2005/05)- de Gloria Perez - TV Globo
-Amazônia (2007)- mini-série sobre a história da Amazônia
até Chico Mendes- TV Globo
-Casos e Acasos- seriado semanal (2008/09)- TV Globo
-Caminho das Indias (2009/2010)- novela vencedora do
Emmy- TV Globo
-Araguaia (2010/11)- finalista do Emmy- TV Globo
-Salve Jorge (2012/13)- novela sobre tráfico humano- TV
Globo
-Salve Jorge (2012/13)- novela sobre tráfico humano- TV
Globo
-Vidas Partidas (2014/15)- longa metragem de ficção.
-Orgulho Nacional ( 2017/18)- doc sobre Homofobia e
Futebol- Casa do Saber
-Na Corda Bamba -(2019/2020)- novela/série finalista do
Emmy- TVI
-Kaput (2020)- curta experimental com a performer Guta
Galli
-Sapadores da Humanidade (2021)- doc sobre um ex-líder de
gangue transformado pela arte- Gandaya
-Um Lobo Entre Os Cisnes (Longa Metragem julho 2025)