Poucas bandas conseguiram capturar com tanta autenticidade e sofisticação o espírito musical brasileiro quanto o trio carioca Azymuth. Formado em meados dos anos 1970 por José Roberto Bertrami (teclados), Alex Malheiros (baixo) e Ivan Conti “Mamão” (bateria), o grupo criou uma sonoridade única, uma espécie de “samba do espaço sideral”, misturando jazz-fusion, funk, soul, samba e uma pitada generosa de psicodelia. A formação atual da banda conta com o baterista Renato Massa Calmon e o tecladista Kiko Continentino.

O termo que eles mesmos cunharam — “Samba Doido” — não é apenas uma jogada de marketing ou um rótulo estilístico: é uma declaração de intenções. O Azymuth não se conforma com a divisão entre o erudito e o popular, entre o nacional e o internacional. Suas composições quebram barreiras geográficas e culturais, oferecendo um som ao mesmo tempo cosmopolita e profundamente enraizado na brasilidade.

Início no Estúdio, Futuro nas Estrelas

O grupo surgiu como banda de estúdio, colaborando com artistas como Marcos Valle, Raul Seixas e Jorge Ben. Seu primeiro álbum homônimo, lançado em 1975, já dava sinais da revolução que estava por vir: faixas como “Linha do Horizonte” apresentavam um groove sofisticado, com harmonias flutuantes e batidas envolventes. Esse som hipnótico logo chamaria a atenção internacional.

O sucesso nos Estados Unidos veio com o contrato assinado com o prestigiado selo Milestone Records, que já havia abrigado gigantes do jazz como McCoy Tyner e Sonny Rollins. Entre 1979 e 1988, o Azymuth lançou uma série de álbuns que se tornaram cultuados, como “Light as a Feather” (1979), que contém seu maior hit, “Jazz Carnival” — uma faixa que se tornou onipresente nas pistas de dança do mundo inteiro, sendo sampleada e remixada por DJs das mais variadas gerações.

Estética e Técnica: Um Equilíbrio Raro

O brilho do Azymuth está no equilíbrio perfeito entre virtuosismo e sensibilidade estética. Bertrami, com seus sintetizadores e teclados elétricos, criava texturas que beiram o místico. Mamão, com sua bateria quebrada e suingada, mantinha os pés no chão do samba. E Alex Malheiros, com seu baixo elétrico pulsante, costurava todas essas camadas com firmeza e lirismo.

É importante destacar que o som do Azymuth nunca foi uma mera tentativa de “abrasileirar” o jazz americano. Pelo contrário, o grupo redefiniu o jazz à luz da cultura brasileira, levando aos palcos do mundo elementos como o baião, o choro e o samba-rock, em uma linguagem que sempre soou contemporânea.

Legado e Continuidade

Com o falecimento de José Roberto Bertrami em 2012 e, mais recentemente, de Ivan Conti em 2023, o Azymuth perdeu dois de seus pilares, mas não sua essência. A banda continuou ativa, com músicos que preservam o espírito original enquanto exploram novos caminhos sonoros. O selo londrino Far Out Recordings, parceiro de longa data, tem sido fundamental nesse processo, relançando clássicos e promovendo novas gravações e colaborações.

Hoje, artistas como Madlib, Floating Points e Four Tet citam o Azymuth como influência, provando que sua música transcende décadas e gêneros. Eles não são apenas uma banda de jazz brasileiro — são uma instituição viva da música universal.

A banda acaba de lançar seu novo album - “Marca Passo”.

Ouvir o Azymuth é embarcar em uma viagem sonora onde o groove encontra o cosmos, onde o samba dialoga com o sintetizador, e onde o Brasil se conecta com o mundo. É música para dançar, meditar e — acima de tudo — sentir. O Azymuth permanece como um dos maiores tesouros sonoros do Brasil, com uma discografia que continua a inspirar músicos, críticos e ouvintes ao redor do planeta.