Manas: o grito silencioso da Amazônia que ecoou pelo mundo
Em um cenário onde o cinema brasileiro frequentemente se divide entre comédias pastelão e dramas urbanos, Manas surgiu como um soco no estômago. Dirigido por Marianna Brennand, o longa-metragem de estreia da cineasta pernambucana é um retrato realista e doloroso da violência contra meninas e mulheres na Ilha do Marajó, no Pará. E sua trajetória impressionante — mais de 20 prêmios internacionais, indicação ao Goya (o "Oscar espanhol") e vitórias no Prêmio Grande Otelo 2026 — prova que essa história, enraizada na Amazônia, tocou o mundo.
A trama: quando o sonho se choca com a realidade
A história acompanha Marcielle, ou Tielle (interpretada pela estreante Jamilli Correa, em uma atuação elogiada pela crítica e pelo público), uma jovem de 13 anos que vive em uma comunidade ribeirinha na Ilha do Marajó . Ela cresce ouvindo a mãe (Fátima Macedo) falar com admiração sobre sua irmã mais velha, Claudinha, que teria partido para "bem longe" após encontrar um "homem bom" nas balsas que navegam pelo rio.
Para Tielle, essa partida é um sonho — a promessa de um futuro melhor. Mas, conforme amadurece e observa o que realmente acontece ao seu redor, sua idealização desmorona . Ela percebe que está presa entre dois ambientes abusivos e que o destino de Claudinha não foi um conto de fadas, mas sim parte de um ciclo de exploração sexual que vitima as meninas da região . Ciente de que o futuro não lhe reserva muitas opções, Tielle decide confrontar a engrenagem violenta que rege sua família e sua comunidade, movida especialmente pelo medo do que pode acontecer à sua irmã mais nova.
Uma história real, contada com sensibilidade
A força de Manas não está em um roteiro de tirar o fôlego ou em reviravoltas inesperadas. Sua virtude, segundo a crítica, está na maneira sóbria, realista e respeitosa com que aborda um tema profundamente doloroso . O filme não explora o sofrimento das personagens de forma sensacionalista, mas o apresenta como uma realidade naturalizada — e por isso ainda mais chocante.
A diretora Marianna Brennand partiu de uma pesquisa sobre casos reais de exploração sexual de crianças nas balsas do Rio Tajapuru, na Ilha do Marajó . Em entrevista, ela revelou que o projeto começou após ganhar um edital da Ancine em 2014, e que as viagens à região foram fundamentais para construir a narrativa com respeito e precisão . "O filme viaja e toca o coração das pessoas porque é feito de uma maneira realmente muito delicada e respeitosa com o assunto, com a temática, com nós mulheres, com a representação do feminino", afirmou a diretora.
Elenco e reconhecimento
O elenco reúne talentos paraenses e nacionais. Ao lado da estreante Jamilli Correa, estão a consagrada Dira Paes, no papel da policial Aretha — personagem inspirada em profissionais que atuam no combate à exploração infantil na região —, Fátima Macedo e Rômulo Braga . O roteiro, assinado por um coletivo de seis roteiristas (incluindo a diretora e a presidente da EBC, Antonia Pellegrino), também foi premiado .
A trajetória de premiações de Manas é impressionante. O filme estreou mundialmente na seção Giornate degli Autori do Festival de Veneza 2024, onde venceu o Director's Award, e conquistou prêmios no Los Angeles Brazilian Film Festival, no Festival do Rio, no Silk Road International Film Festival da China (onde levou os prêmios de melhor diretora e melhor atriz), além do prêmio do público na Golden Rooster International Film Section . Em 2026, foi indicado ao Prêmio Goya e, no Prêmio Grande Otelo, levou cinco estatuetas, incluindo Melhor Longa-Metragem, Melhor Direção, Melhor Atriz Coadjuvante (Dira Paes) e Melhor Roteiro Original.
Manas não é um filme fácil de assistir. É um filme que incomoda, que expõe feridas, que denuncia uma realidade brutal que persiste na Amazônia brasileira. Mas, como observou a crítica, sua grande virtude é "preservar a vítima" e contar essa história sem vitimizá-la ainda mais . Ao ser exibido em festivais pelo mundo, o filme provocou uma reação recorrente: mulheres abordaram a diretora para dizer "Eu também sou uma Mana, passei por isso". É um filme que, como o próprio cinema pode fazer, cria pontes, gera diálogo e, acima de tudo, transforma.









