A Arte de Escutar: Por que a Saúde Mental Precisa de Mais do que Remédios
Em setembro, o Centro de Valorização da Vida (CVV) lançou sua campanha do Setembro Amarelo com um tema que resume a essência do cuidado em saúde mental: “Escutar é estar presente”. A mensagem é simples, mas carrega um peso enorme. Em um país onde o CVV recebe mais de 5 mil ligações por dia, fica claro que o que muitas pessoas buscam não é uma solução mágica ou um diagnóstico — é, antes de tudo, alguém disposto a ouvir.
A saúde mental não se resume a remédios. Medicamentos têm seu lugar, especialmente em quadros graves, mas não podem ser a única resposta. O cuidado vai além das prescrições: passa pelo acolhimento, pela presença genuína e, sobretudo, pela escuta qualificada. Como afirmou a psicóloga Lycia Albuquerque, do Hospital Dr. Ib Gatto Falcão, “em situações de crise emocional, quando a pessoa encontra alguém disposto a ouvir, esse simples gesto pode significar a diferença entre seguir em frente ou desistir”.
O que é escutar de verdade?
Ouvir é um ato passivo — captar sons que chegam aos ouvidos. Escutar, porém, é um ato ativo e intencional. Envolve atenção plena, empatia e a disposição de compreender o outro sem pressa e sem julgamento. Durante uma palestra promovida pela Secretaria de Estado da Saúde do Piauí, a voluntária do CVV Maria Zélia Soares explicou essa diferença: “No momento da escuta você busca compreender o outro, entender o que ele está falando e tentar, junto a ele, perceber se é aquilo que ele realmente está sentindo”.
Escutar ativamente significa captar o que não é dito explicitamente. Na psicologia, essa habilidade permite ao profissional identificar sinais e sintomas para além do relato verbal — expressões faciais, hesitações, mudanças no tom de voz. O médico clínico Pedro Andrade corrobora essa visão: “Muitas vezes, o que não aparece nos exames surge durante a conversa. A escuta cuidadosa permite identificar sinais de alerta que podem salvar vidas”.
O desafio da escuta no mundo de hoje
Vivemos em uma época paradoxal. Nunca estivemos tão conectados digitalmente, e nunca fomos tão solitários. A rotina acelerada, as distrações constantes e as relações mediadas por telas reduziram drasticamente os espaços de conversa genuína. Muitas pessoas lidam com angústias sem encontrar um ambiente seguro para falar sobre o que sentem.
É nesse contexto que o trabalho do CVV se torna tão relevante. O serviço, que completa 64 anos em 2026, mantém uma rede de apoio baseada exclusivamente na escuta acolhedora. Os voluntários — cerca de 3 mil em todo o país — não oferecem tratamento psicológico ou psiquiátrico. Como explica o voluntário Carlos Correia: “O nosso trabalho é ouvir. Não é dar conselho, não é dizer o que a pessoa tem que fazer. É oferecer aquele espaço para que ela possa falar”.
O que podemos fazer?
A boa notícia é que a escuta não é uma habilidade restrita a profissionais. Familiares, amigos, colegas de trabalho — todos podem praticar a arte de escutar. A campanha do Setembro Amarelo 2026 convida a sociedade a incorporar esse gesto no cotidiano, lembrando que “nem sempre precisamos de respostas prontas. Estar presente, ouvir sem julgamento e demonstrar interesse genuíno já é um grande passo para ajudar quem está em sofrimento”.
Remédios tratam sintomas. A escuta trata pessoas. Em um país onde 5 mil pessoas por dia ligam para o CVV em busca de acolhimento, fica evidente que a saúde mental precisa de abordagens que vão além da medicalização. Como nos ensina o voluntário Fernando Henrique, coordenador do CVV: “O diálogo verdadeiro, na sua simplicidade, é revolucionário” . E essa revolução começa com um gesto simples: estar presente e escutar.









