Dona Flor e Seus Dois Maridos: o desejo que escandalizou, o público que consagrou — e um recorde que durou décadas
Dona Flor e Seus Dois Maridos ficou 34 anos como o filme mais visto da história do Brasil. Quando estreou, em 1976, Bruno Barreto tinha 21 anos. O longa não foi só um sucesso de bilheteria—foi o filme que mostrou que uma produção nacional podia alcançar um público enorme sem abrir mão de sua identidade.
A Bahia de Jorge Amado, viva na tela
A adaptação do romance homônimo de Jorge Amado, publicado em 1966, tinha tudo para dar errado. O livro era um best-seller absoluto, com mais de dois milhões de leitores, e a tarefa de transportar para a tela a prosa sensual e irônica de Amado carregava um risco evidente de esterilização literária. O roteiro, assinado por Barreto em parceria com Eduardo Coutinho e Leopoldo Serran, encontrou o equilíbrio: manteve a espinha dorsal da história—a professora de culinária Florípides, dividida entre a memória fogosa do marido malandro Vadinho e a respeitabilidade morna do farmacêutico Teodoro—sem abrir mão da malícia e da alegria que fazem a prosa de Amado respirar.
A sinopse é conhecida, mas nunca perde a graça: em pleno carnaval de 1943, Vadinho morre subitamente, deixando Dona Flor viúva. Ela se casa novamente, agora com o recatado Dr. Teodoro, mas a vida conjugal, embora estável, é um deserto de desejo. É quando o espírito de Vadinho retorna—visível apenas para ela—para reivindicar seu lugar no leito e na vida da esposa. O que se segue não é um triângulo amoroso convencional, mas uma comédia de costumes sobre desejo, moralidade e a impossibilidade de separar o corpo da alma.
Um diretor de 21 anos e uma estrela em erupção
Bruno Barreto tinha 20 anos quando as filmagens começaram, e 21 quando o filme estreou. Filho do produtor e fotógrafo Luiz Carlos Barreto, ele trazia o peso do sobrenome, mas também uma sensibilidade visual que se revelaria decisiva. A direção de fotografia de Murilo Salles—creditado como Murillo Salles em algumas fontes—fez da Salvador colonial um personagem à parte, contrastando a rigidez moral da classe média baiana com a libertinagem encarnada por Vadinho.
À frente do elenco, Sônia Braga entregou a atuação que a transformaria em estrela internacional. Aos 26 anos, ela já vinha de um sucesso televisivo avassalador com a novela Gabriela (1975), também baseada em Amado, mas foi em Dona Flor que sua imagem se consolidou como um símbolo de sensualidade e força. A indicação ao BAFTA de melhor revelação, no Reino Unido, selou seu nome fora do Brasil. Ao seu lado, José Wilker viveu o papel de sua vida no cinema—o crítico Fernando Ferreira escreveu à época que Wilker tinha ali “o seu melhor desempenho, até agora”. Mauro Mendonça, como o farmacêutico Teodoro, completou o trio com a exata medida de contenção que o papel exigia.
“O que será”: a canção que virou hino
Poucos filmes brasileiros podem se orgulhar de ter gerado uma canção tão duradoura quanto Dona Flor. Chico Buarque e Francis Hime foram os responsáveis pela trilha sonora, e “O Que Será” nasceu de um pedido direto de Bruno Barreto. A canção aparece em três versões ao longo do filme—“O Que Será (Abertura)”, “O Que Será (À Flor da Terra)” e “O Que Será (À Flor da Pele)”—, cada uma marcando uma passagem distinta da trama e funcionando como comentário emocional das contradições de Dona Flor. Na voz de Simone, a canção se tornou um dos maiores sucessos da carreira de Chico e um clássico absoluto da MPB. A trilha rendeu a Barreto um dos dois Kikitos que o filme levaria em Gramado, ao lado do prêmio de melhor direção.
A batalha contra a censura
Nenhum artigo sobre Dona Flor pode ignorar o episódio que quase impediu que o filme chegasse ao público como foi concebido. Em plena ditadura militar, a Divisão de Censura indicou treze cortes—algumas fontes falam em 42—, e o ministro da Justiça, Armando Falcão, havia endossado os vetos. O produtor Luiz Carlos Barreto, então com 98 anos quando faleceu, em 2026, foi a Brasília negociar pessoalmente. Conseguiu que o próprio presidente Ernesto Geisel assistisse ao filme e o liberasse sem cortes—ou, segundo relatos, com apenas cinco cortes residuais. O episódio, narrado no livro Chame o Ladrão, de Miguel de Almeida, é um dos capítulos mais curiosos da relação entre artistas e censores durante o regime militar. O conteúdo sexual do filme, que incomodava os censores, era exatamente o que o tornava visceralmente brasileiro e popular.
O fenômeno de bilheteria
Os números são de tirar o fôlego. Dona Flor estreou em 22 de novembro de 1976 e levou 10.735.524 espectadores aos cinemas brasileiros. Foi o recordista absoluto de público no Brasil por 34 anos, até ser superado por Tropa de Elite 2, em 2010. Internacionalmente, o desempenho também foi notável: o filme recebeu indicações ao Globo de Ouro e ao BAFTA e permaneceu como a produção brasileira de maior bilheteria no exterior por mais de 30 anos. Com um orçamento de aproximadamente US 600 mil**, arrecadou cerca de **US 8 milhões—um retorno que poucos filmes nacionais repetiriam.
A crítica da época entendeu o que estava em jogo. O Globo publicou, sob o selo “O Bonequinho viu”, que o filme tinha “uma alegria e um humor moleque, muito à brasileira, que certamente o tornarão um dos grandes favoritos das plateias”. Jorge Amado, o criador, foi ainda mais generoso: “O moço diretor, com seu talento e sua sensibilidade, captou o que havia de mais importante na história de dona Flor. Acho o filme belo e denso, creio que está à altura das melhores criações do cinema nacional. Vitória do amor contra o preconceito, vitória da vida contra a morte”.
Legado: um clássico que não pede licença
Dona Flor não foi apenas um sucesso; foi um marco. Em 2015, entrou na lista dos 100 melhores filmes brasileiros de todos os tempos da Abraccine. Gerou uma minissérie na TV Globo em 1998, um remake hollywoodiano em 1982 (Meu Adorável Fantasma, com Sally Field) e uma nova versão brasileira em 2017. Nenhuma delas, no entanto, capturou o que o original tem de mais precioso: a capacidade de ser, ao mesmo tempo, uma comédia erótica, um retrato social da Bahia e uma reflexão sobre o desejo feminino—tudo embalado por uma leveza que nunca resvala no superficial.
Bruno Barreto tinha 21 anos quando fez Dona Flor. Talvez nunca tenha feito nada tão espontaneamente livre. E talvez seja exatamente isso que torna o filme irrepetível: ele foi feito por alguém jovem o suficiente para não saber que estava criando um clássico—e talentoso o suficiente para criar um sem perceber.
Por Redação BrasilBest | Editoria de Cinema












